CineApple nº 21: “A Herdade”, A solidão afetiva

Esta semana em que o outono já se faz sentir em força, a rubrica CineApple fala duma história feita de várias estações do ano que assolaram as gentes do Ribatejo e não só, na verdade de Portugal inteiro, durante a pré e a pós-revolução de 25 de abril de 1974.

A Herdade” é o filme de que se fala, aqui e nas salas de cinema portuguesas desde a sua estreia, no passado dia 19 de setembro.

Após o sucesso de bilheteiras de “Variações”,  é a vez da longa-metragem “A Herdade”, de Tiago Guedes (também realizador em “Coisa Ruim”) que está a dar cartas no panorama nacional e internacional, onde a sua estreia mundial já teve direito ao Prémio Bisato d’Oro para melhor realização no Festival de Cinema de Veneza, mas passando também pelo Festival de Toronto (TIFF) e já nomeado para os próximos Óscares para melhor filme estrangeiro.

Todas estas, que já podemos considerar vitórias para o cinema português não são dadas em vão, o melodrama vivido na família do latifundiário João Fernandes, papel fortemente representado pelo já consagrado Albano Jerónimo, é afecto a uma altura que pouco foi abordada na nossa sétima arte, as dificuldades e a forma de vida do povo português, numa herdade da margem sul do Tejo durante uma altura da nossa história, marcado pela dureza da ditadura.

Entre o trabalho árduo e as peripécias dos que trabalham para João Fernandes e a própria herança emocional deixada pelo pai deste ao próprio, acabam por tornar o filme cada vez mais interessante, conforme podemos respirar entre cenas.

Os momentos dramáticos e os próprios atores, criam um ambiente no qual se desenvolvem em consonância, vejamos por exemplo Sandra Faleiro (Leonor), a esposa de João, sofredora mas também resiliente, face à frieza e distância do marido, que não é má pessoa mas que não quer lidar com os seus dramas interiores.

Todas as personagens constroem um papel predominante na história a par da evolução cronológica do filme, que termina na década de 90.

A revolução dos cravos trouxe a liberdade, mas não conseguiu libertar esta família de todos os fantasmas que sempre assombraram a sua história. 

Vale a pena conhecer “A Herdade”.

Espero por vocês na próxima semana para mais um CineApple, até lá!

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